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A viagem que não foi como planejado: 14 dias na Patagônia, vento, e uma decisão errada

Eu tinha 14 dias planejados em detalhe. Voos, refúgios, trilhas com horário, refeições reservadas. Voltei sem ter feito metade. E essa foi, em retrospectiva, a melhor viagem que fiz na década.

Por Equipe AirPoint·
A viagem que não foi como planejado: 14 dias na Patagônia, vento, e uma decisão errada

A premissa

Janeiro de 2024. Aos 38 anos, decidi fazer a viagem que me prometia desde os 22: 14 dias na Patagônia argentina e chilena. El Calafate, Torres del Paine, El Chaltén, fim do mundo (Ushuaia). Trekkings, glaciares, o vento famoso, isolamento.

Planejei por 9 meses. Voos: Latam GRU-EZE-FTE conectados milimetricamente. Refúgios em Torres del Paine: 4 noites na trilha W com refúgios reservados (Paine Grande, Frances, Chileno, Torres). Trilha do Fitz Roy em El Chaltén: dia inteiro, com mochila de 12kg dimensionada. Reservas de restaurante até a última noite em Ushuaia.

Cheguei em El Calafate no dia 1 com a sensação de quem fez tudo certo. Estava errado.

O primeiro sinal

Dia 3. Estava na trilha pra Mirador Maestri (4h), em El Chaltén. Vento de 80 km/h. Isso é normal na Patagônia — eu sabia em teoria. O que não sabia em prática é que vento de 80 km/h não é "ventania forte". É uma força que muda como caminhada funciona.

Tropecei numa raiz mal vista por causa do capuz puxado pelo vento, caí, torci o tornozelo direito. Não foi grave — sem fratura, edema controlável. Mas suficiente pra mudar tudo.

Voltei ao albergue mancando 2h30. Médico de plantão em El Chaltén olhou, disse "leve, mas trekkings de 6h+ por 7 dias seguidos não vão funcionar. Considere reorganizar."

Reorganizar significava: cancelar Torres del Paine. Trilha W exige 6-8h por dia, 4 dias seguidos, com mochila. Eu não conseguiria.

A primeira decisão errada

Eu insisti.

Nos próximos 2 dias, fiquei em El Chaltén descansando o tornozelo, certo de que ia conseguir fazer Torres del Paine. Comprei medicamento anti-inflamatório, comprei joelheira, comprei bota mais leve. Convenci a mim mesmo que ia funcionar.

Cheguei no Paine Grande, primeiro refúgio, dia 5 da viagem. Subi a primeira hora da trilha W (caminho pra Glaciar Grey) e meu tornozelo doeu de um jeito que sabia: não dá, não vai dar. Voltei ao refúgio. Passei a noite pensando em desistir.

Dia 6: desisti. Saí de Paine Grande no primeiro catamarã. Voltei pra Puerto Natales. Cinco refúgios reservados, três pagos antecipados, viagem inteira de 4 dias trilhada que não ia acontecer.

A virada

Eu chorei. Sério, sem exagero — chorei na cabine do hotel em Puerto Natales na noite do dia 6. Dez meses de planejamento, R$ 38 mil de orçamento, 14 dias programados — e a parte central da viagem tinha caído por causa de uma raiz e um capuz puxado pelo vento.

Depois de chorar, fiz três coisas:

Primeiro, cancelei tudo o que estava com possibilidade de cancelamento (refúgios, restaurantes, transfers). Recuperei R$ 4.800.

Segundo, parei de planejar. A primeira coisa em 9 meses que eu fiz sem planejar era reagir a uma quebra. A segunda, decidi, seria a viagem em si.

Terceiro, peguei um mapa. Marquei tudo o que ainda dava pra fazer com tornozelo machucado: visitar Torres del Paine de carro (não trilhar), ir pra Punta Arenas (cidade que não estava no plano), fazer Pingüinera de Seno Otway (excursão de meio dia), atravessar pra Ushuaia (estava no plano), fazer Tierra del Fuego de carro alugado em vez de trekking.

E aí, fiquei 8 dias seguindo essa lista que apareceu numa noite ruim em Puerto Natales.

O que aconteceu

Dia 7-8: Torres del Paine de carro. Fui aos miradores principais, almocei numa estancia que servia cordeiro patagônico. Vi guanacos, condores, paisagem que eu via filmar enquanto outros caminhavam — e descobri que a paisagem não exige a caminhada pra ser memorável. Fui no salto Grande, no Lago Pehoé, no Mirador Cuernos. Em nenhum momento estava com pressa.

Dia 9: pra Punta Arenas. Cidade que eu tinha riscado do plano por achar "sem graça". Errado. Punta Arenas tem o museu mais surreal do continente (Museo Maggiorino Borgatello), bairro inglês do século XIX, pinguineras a 1h de carro. Fiquei dois dias.

Dia 11: voo pra Ushuaia. Reencontrei o plano original aí.

Dia 12: parque Tierra del Fuego de carro (não a pé como planejado). Vi castores, raposas, paisagem que outras pessoas pegaram em trilha. Levei meia-tarde. Restou a outra meia-tarde pra coisa que eu nunca teria feito: fui passear de barco no Beagle Channel, vi leões marinhos, conversei com o capitão argentino que veio pro fim do mundo aos 60 anos depois de se aposentar como engenheiro em Rosário.

Esse capitão me marcou mais que qualquer trilha que eu teria feito. Ele falou de quando o pai dele fugiu da Itália em 1947 com mãe e 4 irmãos, foi parar em Rosário, e como ele agora "fugia da civilização" voltando pro fim do mundo. "Acabei a viagem que meu pai começou", ele disse no convés. Era frase de filme.

Dia 13: Ushuaia caminhada (curta, com tornozelo melhor). Almoço de centolla (caranguejo gigante patagônico, que custaria R$ 280 por pessoa em SP — em Ushuaia custa US$ 30). Tarde livre, café no Glaciar Martial.

Dia 14: voo Ushuaia → Buenos Aires → São Paulo. Cheguei em casa sem ter feito metade do que tinha planejado.

E mesmo assim foi a melhor viagem da minha década.

A pergunta

Por que foi a melhor?

Não pelas paisagens — paisagens da W eu teria visto. Não pela aventura — caminhada teria sido mais aventura. Não pelo orçamento — gastei o mesmo, talvez mais.

Foi a melhor porque foi a primeira viagem da minha vida adulta em que eu não controlei nada do que aconteceu. Cada dia se desenhou em resposta à condição do meu tornozelo, ao tempo, à possibilidade. Decisões eram tomadas no café da manhã. Encontros aconteciam porque eu estava em lugares que não tinha planejado estar.

Eu, viajante-planejador, descobri o que outras pessoas chamam de improviso. E descobri que improviso, em viagem, frequentemente entrega coisa que planejamento perfeito nunca conseguiria.

A coisa que aprendi

Não estou dizendo que vale planejar mal. Planejei bem — e o plano me deu a estrutura inicial que segurou os primeiros dias. Sem plano, eu não teria chegado em El Chaltén com tudo organizado o suficiente pra que a quebra não virasse desastre.

Estou dizendo outra coisa. Estou dizendo que o plano é uma hipótese, não um destino. Quando ele se quebra — e ele vai se quebrar em alguma viagem — você tem duas opções: lutar contra a quebra (o que fiz nos primeiros 2 dias depois do acidente), ou aceitar que a viagem que existe agora é diferente da viagem que existia antes.

Quem aceita rapidamente colhe. Quem luta contra perde duas viagens — a planejada que não vai acontecer, e a improvisada que pode acontecer.

A regra que peguei dali: quando o plano se quebrar, dê a si mesmo no máximo 24 horas pra processar e replanejar. Depois, comprometa-se totalmente com a viagem nova. Nostalgia pelo plano original é veneno em viagem em movimento.

Em retrospectiva

Voltei pra São Paulo no dia 14 com uma coisa que não tinha quando saí: experiência de quebrar plano e sobreviver. Em viagens posteriores, isso ajudou — sou mais flexível, planejo menos, abro mais espaço. Não foi o tornozelo que ensinou. Foi como reagi ao tornozelo.

Toda vez que conto essa história, gente que nunca viajou pergunta a mesma coisa: "Você voltaria pra Torres del Paine pra fazer a W trail?". A resposta é sim, eu voltaria. Mas com uma confissão: a viagem inteira que fiz, sem a W trail, foi mais memorável que a viagem com W trail provavelmente teria sido.

Quebra é parte da viagem. Pode ser a melhor parte.

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