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Workation 3 anos depois: o que sobrou do hype e o que morreu de vez

Em 2022 todo mundo ia largar São Paulo pra trabalhar de Bali. Em 2026, descobrimos quem realmente fez — e quem só usou a palavra. Sobre a tendência que mudou de forma sem ninguém perceber.

Por Equipe AirPoint·
Workation 3 anos depois: o que sobrou do hype e o que morreu de vez

A tese

Workation virou palavra de ano em 2022. LinkedIn explodia de gente anunciando "trabalho de Lisboa por 6 meses". Empresas abriam programas oficiais. Imobiliárias em Bali e em Tulum reposicionavam apartamentos pra "digital nomad". E todo brasileiro com laptop perguntava ao chefe se podia "tentar Lisboa por uns meses".

Em 2026, três anos depois, a paisagem é completamente diferente. E quase ninguém escreveu sobre isso.

A tese deste post: workation não morreu — mas o workation que existia em 2022 morreu. O que sobreviveu é uma forma diferente da prática, com características diferentes, vencedores diferentes, e uma janela diferente de oportunidade. Quem ainda pensa em "workation" pelas categorias de 2022 está perdendo a virada.

A primeira fase (2020-2022): o sonho

Pandemia + remoto forçado + voos baratos + saudade de viajar = explosão. A primeira fase do workation foi caracterizada por:

  • Estadia longa (3-12 meses).
  • Foco em "destinos de nômade" (Lisboa, Bali, Cidade do México, Buenos Aires, Tulum).
  • Empresa não sabia (ou fingia não saber). Era o trabalhador improvisando.
  • Vista de turista esticada (visitor visa de 90 dias, "renovações em saída").
  • Comunidades virtuais (NomadList, slack groups, "vibe communities").

A geração-piloto era brasileiro de 28-35 anos, solteiro ou em relacionamento sem filho, dev/designer/marketing — funções remotizáveis. O custo médio reportado: R$ 4.500-7.000 por mês na cidade-destino, contra R$ 12-18 mil em SP.

Funcionava. Mas tinha problemas estruturais que não estavam visíveis pelo entusiasmo.

O colapso silencioso (2023-2024)

Quatro forças quebraram o modelo de 2022, em sequência:

1. Países começaram a cobrar imposto. Portugal mudou regra do NHR (Non-Habitual Resident) em outubro de 2023, eliminando a isenção de 10 anos pra novos residentes. Espanha endureceu visto de nômade. Tailândia adicionou custo de visto Long-Term Resident. O modelo de "morar lá sem pagar imposto lá" virou inviável.

2. Empresas voltaram parcialmente ao escritório. O retorno híbrido tornou impraticável o "morar 6 meses em Lisboa" — você precisa estar no escritório 1-2 dias por semana em SP. A geometria do trabalho mudou.

3. Custo nos destinos populares explodiu. Lisboa em 2024 ficou tão cara que perdeu o sentido financeiro. Bali em 2025 idem. Cidade do México só funciona se você for pra bairros que ninguém quer ir. O arbitragem de custo de vida que sustentava workation desapareceu nos lugares que tinham fluxo.

4. Burn-out de nômade virou tema. A coisa romântica da primeira fase se chocou com a realidade da segunda: solidão, dificuldade de criar laços, fuso horário ruim, dificuldade de cuidar de saúde, ausência de família. O ritmo era insustentável pra maioria.

Em 12 meses (mid-2023 a mid-2024), workation deixou de ser tendência ascendente e virou objeto de pequena recapitulação.

A virada que ninguém viu (2024-2026)

Mas — e aqui está a parte interessante — workation não morreu. Ele se redesenhou. E a versão 2026 do workation é estruturalmente diferente da de 2022.

Caracteristicas da nova fase:

  • Estadia curta (3-4 semanas, 1-2 vezes por ano).
  • Foco em destinos integrados (cidades que combinam bem com fuso BR + têm vibe profissional + não exigem visto especial).
  • Empresa explicitamente alinhada ("trabalho remoto de qualquer lugar do Brasil ou de até 30 dias fora").
  • Modelo "viagem-trabalho" (manhã trabalho, tarde livre) em vez de "viagem-trabalho-estadia" (vida inteira fora).
  • Comunidades físicas (coworkings com programa estruturado, retreats organizados).

A geração que está praticando hoje é diferente: 32-45 anos, frequentemente com filho, sênior na carreira. Custo: R$ 8-15 mil por viagem (não por mês), 2x por ano. Mais caro por trip, mais barato por ano.

Os vencedores comerciais dessa nova fase também mudaram. Lisboa perdeu pra Porto. Bali perdeu pra Chiang Mai. Buenos Aires sobreviveu mas mudou de bairro (Belgrano cresceu, Palermo saturou). Surgiram destinos secundários nunca antes considerados: Funchal (Madeira), Florianópolis pra brasileiro de SP, Bansko (Bulgária — sério).

Por que importa pra você

Se você tem flexibilidade real de trabalho remoto e está pensando em workation, três avisos práticos:

1. Esqueça o modelo de 2022. "Vou pra Lisboa por 6 meses" é receita pra burn-out + complicação fiscal + custo desfavorável. Em 2026, não é estratégia inteligente.

2. Aceite que workation é viagem, não mudança. A versão sustentável é 3-4 semanas. Empresa alinhada. Volta pra base. Faz duas vezes por ano. Funciona.

3. Os destinos secundários são onde está o ganho. Funchal em maio, Chiang Mai em outubro, Buenos Aires (Belgrano) em março. Custo 50% menor que destinos saturados, qualidade de experiência igual ou maior. Quem está descobrindo agora capta antes do fluxo.

O que mudou nas empresas brasileiras

Em 2022, empresa brasileira não tinha política. Em 2024, começou a ter — quase sempre restritiva ("só Brasil, ou no máximo Portugal por 30 dias"). Em 2026, está se diversificando:

  • Permissivas (Nubank, iFood, Mercado Livre): "Qualquer lugar do mundo, desde que cumpra horário núcleo BR e não cause complicação fiscal."
  • Restritivas (a maioria): "Só Brasil. Excepcionalmente, 30 dias fora com aprovação."
  • Vetadas (algumas): "Lugar de trabalho é o registrado em contrato." (Geralmente bancos tradicionais e órgãos públicos.)

Antes de planejar workation, pergunte ao RH explicitamente. A surpresa é que muitas empresas têm política mais permissiva que o trabalhador imagina — e algumas têm restrição que ninguém comunicou. Saber é estratégico.

A janela que ainda está aberta

Apesar do colapso da forma 2022, há uma janela específica que ainda funciona muito bem em 2026 — e que provavelmente não vai durar mais do que 18-24 meses:

Workation de 30 dias em destino secundário, com empresa alinhada, em janela de baixa temporada.

Exemplos concretos:

  • Florianópolis em maio (chega de SP em 1h, custo 40% menor, infraestrutura coworking madura).
  • Funchal em junho (Madeira, fora do circuito Lisboa, antes da temporada europeia).
  • Chiang Mai em novembro (clima ideal, comunidade forte de remoto, custo 60% menor que Bali).
  • Buenos Aires (Belgrano) em outubro (primavera, dólar favorável, voo direto).
  • Cidade do México (Roma) em fevereiro (clima perfeito, oferta de coworking explosiva).

Cada um desses destinos tem hoje as três condições: custo razoável, infraestrutura digital, comunidade brasileira em formação. Em 18-24 meses, viraram saturados. Quem captura agora paga 1/3 do que vai pagar em 2028.

Para conversar

Vale a pena workation se você tem filho pequeno?

Resposta honesta: depende da idade. Filho 0-3 anos: difícil, mas funciona se um dos pais não trabalha durante a viagem. Filho 4-9: vai bem, especialmente em destinos com escola internacional curta-temporada (Florianópolis, Funchal). Filho 10+: ótimo — eles ganham experiência, vocês trabalham normal.

O que não funciona: tentar fazer workation no ritmo de SP. Tem que ajustar expectativa de produtividade pra baixo (talvez -20%) e aceitar que parte do valor é justamente desacelerar.

FAQ

Workation conta como viagem ou como trabalho remoto? Conta como ambos. Pra Receita Federal, depende do tempo: até 183 dias no exterior em ano-calendário, mantém residência fiscal BR. Acima disso, complica.

Qual destino é mais subestimado em 2026? Funchal (Madeira) e Bansko (Bulgária). Os dois com infraestrutura crescente, comunidade jovem brasileira em formação, custo ainda baixo. Janela curta — esses lugares vão dobrar de preço até 2028.

Como Tom interpreta isso? Tom acompanha tendência de uso de pontos pra workation (estadia longa de hotel acumula muito menos que estadia curta — vale Airbnb mensal). Quando aparece tarifa boa pra destino secundário em janela de baixa, Tom alerta.

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